Você está em
  1. > Home
  2. > Usuários
  3. > joaovantol
33 years Florianópolis - (BRA)
Usuário desde Março de 2016
Grau de compatibilidade cinéfila
Baseado em 0 avaliações em comum

Se rir é o melhor remédio, RoboCop e Tropas Estelares são os filmes que mais me fizeram bem.

Últimas opiniões enviadas

  • João van Tol Guerra

    A experiência de assistir a Boi Neon me proporcionou algo que me é bastante incomum: imediatamente após ver o filme senti vontade de revisitá-lo. Duas semanas após a sessão, sem remédio em vista para essa aflição, não consigo evitar revisitar o filme mentalmente. Ele me é como um quadro absurdamente belo e detalhado, momentos sutis parecem ser cheios de significado e também não machuca o fato da apreciação plástica não ser apressada. É uma narrativa desinteressada de história, repleta de simbolismos, associações, humor e subversão, é tanto trágica quanto humanista ao ilustrar os sonhos e desejos de tantos personagens. Não me envergonho em dizer que escrevo este texto numa madrugada insone e lacrimejante após inexoravelmente voltar ao filme mais uma vez. Assim defino Boi Neon.

    O cenário é o das vaquejadas do nordeste e de início somos impactados com uma cena sufocante de bois amontoados, em preparação à violência arcaica de dois vaqueiros competindo para perseguir e derrubar um desses bois pelo rabo. Talvez os outdoors das estrelas das vaquejadas sejam apenas mais uma introdução urbana no meio rural, assim como os tecidos e os manequins descartados, a chapinha elétrica, ou como o próprio boi neon, mas essa área de intersecção parece tão natural quanto qualquer outra e, mais do que isso, muito real. É fruto da naturalidade e competência dos atores em situações banais como quando o vendedor de calcinhas xaveca a mãe inicialmente não muito confiante no produto; quando a menina no meio dos vaqueiros faz piada do umbigo do amigo gordo; e quando o vaqueiro conhece tanto o ofício que sabe que a melhor maneira de limpar a bosta do boi é com as mãos.

    Um olhar superficial no cenário e nas situações do filme já é muito recompensador pela riqueza visual e de sentimentos, há oportunidades de sobra para empatia e humor (pelo menos em duas cenas a sala em que eu estava explodiu em gargalhadas), mas abaixo dessa camada é possível uma riqueza alegórica extra. Parece-me que aqueles bois confinados e aglutinados no início servem de símbolo à própria existência dos personagens humanos, e a menina ao brincar tristemente com o cavalo alado sobre um curral cheio de animais aprisionados está representando seus próprios sonhos e frustrações. O filme trata muito sobre desejos (sexuais, como nas páginas coladas da revista erótica e na euforia da dança sensual) e aspirações (profissionais, como o vaqueiro que quer fabricar roupa e a menina que quer ser vaqueira), mas é realista a ponto de impor limites e é decepcionante ver o vaqueiro sendo escorraçado de sua tentativa de produzir um número módico de peças como resultado de seu analfabetismo técnico, ele está tão aprisionado quanto os bois que guia para as vaquejadas.

    Interessante também são os inúmeros paralelos exibidos ao longo do filme entre os personagens humanos e os animais. Há o cheiro do pano embebido na vagina da égua no cio que, da mesma forma que o perfume no pescoço do vaqueiro, incita ao sexo. No caso equino isso resulta no ato decepcionante da masturbação, num paralelo das já mencionadas páginas coladas com esperma de um homem solitário. Bois cagam e o vaqueiro mija ao ar livre sem cerimônia. Odores, esperma, mijo e bosta; boi, cavalo, homem, mulher, somos todos animais. No picadeiro homem e cavalo parecem um só; no palco dançarina e cavalo é uma só. Mas se tem algo físico que nos distingue de outros animais é nosso hábito de nos vestir, o que dá um peso simbólico para a aspiração do protagonista e toda a cidade fashion. Um diálogo no final do filme tem algo de significativo quando uma mulher grávida aponta ao vaqueiro como ele parece diferente com aquela vestimenta social, o vaqueiro por sua vez dá uma resposta semelhante ao ver a vendedora de perfume vestida de vigia. Isso talvez sirva como pontuação para um filme de subversão de estereótipos: um vaqueiro estilista, uma mãe caminhoneira e mecânica, uma menina que sonha em ser vaqueira, uma grávida que tem apetite sexual. Mas é a ausência de roupas e a nudez desprovida de gratuidade que caracterizam as minhas duas cenas preferidas: o banho dos vaqueiros com o contraste entre a delicadeza do vaqueiro estilista e a bestialidade de todos os outros; e a explosão de atração, sexo e gozo num plano longo após o aspirante a estilista tocar o cenário de seu sonho maior.

    Um filme profundamente humanista, um elogio ao bicho humano desprovido de preconceitos, de uma delicadeza ímpar e de uma tristeza sorrateira.

    Você precisa estar logado para comentar. Fazer login.
  • João van Tol Guerra

    O Julgamento de Viviane Amsalem é um filme israelense e por vezes hilário ao abordar uma faceta da religião ortodoxa: lugar de mulher é em casa lavando roupa, cozinhando e cuidando das crianças. A Viviane do título é uma mulher nos seus quarenta anos que trava uma longa batalha para conseguir seu divórcio. Em Israel o único poder que pode unir duas pessoas em matrimônio ou divorciá-las é um tribunal composto por rabinos e a palavra final no segundo caso é a do marido. É um típico filme de cenário singular: o tribunal é o palco único para os absurdos da lei judaica, das meias-palavras de crentes histriônicos e da suposta inferioridade da mulher, mas não é palco para um resultado justo. É um filme movido por diálogos e talvez por isso dificilmente segurará a atenção do espectador hiperativo, afinal o filme mostra apenas cinco anos de um casal que não se fala indo ao tribunal e lavando roupa suja perante burocratas judeus que não dão voz à mulher. Quando a voz dela explode a vontade foi de juntar-me à falta de decoro.

    Você precisa estar logado para comentar. Fazer login.
  • João van Tol Guerra

    14 Estações de Maria é um filme alemão sobre uma menina de quatorze anos criada por uma família devota aos dogmas católicos tradicionais. O título faz referência à Via Dolorosa na qual Jesus Cristo é condenado e carrega sua cruz em direção ao Gólgota. O formato do filme é algo curioso, ele é composto por apenas quatorze cortes com câmera fixa no lugar, acredito que para passar uma impressão de pinturas das Estações da Cruz. Os quadros lentos no geral são bastante bonitos, mas, junto com a riqueza de diálogos, pode afastar espectadores preguiçosos. No filme a menina Maria é doutrinada desde cedo a confessar seus pecados e evitar ritmos diabólicos,

    Comentário contando partes do filme. Mostrar.

    tem o mesmo destino do “nosso salvador” – sacrifício e ascensão à santidade –

    , mas ao contrário da Bíblia, a mensagem é clara: o que é amargo e piedoso para quem vê de dentro, é engraçado e inocente para quem está de fora. A visão do fundamentalismo religioso incutido em crianças é em essência lavagem cerebral, algo tenebroso, mas em algumas cenas acabei rindo do infortúnio alheio levado a cabo por pensamentos dos tementes a Deus.

    Você precisa estar logado para comentar. Fazer login.
  • Nenhum recado para João van Tol Guerra.